Toda vez que alguém defende a revogação da Lei de Alienação Parental, o discurso vem embalado em boas intenções:
“É para proteger mulheres.”
“É para proteger crianças.”
“É para evitar injustiças.”
O problema começa quando essas frases viram escudo para não encarar a realidade.
Porque, na prática, a revogação não ataca abusos reais. Ela varre para debaixo do tapete um tipo específico de violência — aquela que não deixa marcas no corpo, mas destrói vínculos, identidades e infâncias inteiras.
“Alienação não existe, é invenção”
Essa é uma das frases mais repetidas por quem quer derrubar a lei.
Mas aqui vai uma pergunta simples: se alienação não existe, por que tantos pais vivem exatamente o mesmo roteiro?
O filho que:
- muda de comportamento sem explicação;
- passa a repetir frases adultas;
- demonstra medo irracional;
- rejeita o pai sem nunca ter sido agredido.
Isso não é teoria. É padrão.
Negar a alienação não protege crianças.
Protege quem se beneficia do silêncio institucional.
“A lei é usada por abusadores”
Sim, qualquer lei pode ser usada de forma oportunista.
A Lei Maria da Penha também.
O ECA também.
O próprio sistema penal também.
A resposta racional a isso nunca foi revogar leis — mas corrigir abusos na aplicação.
Usar casos extremos para justificar a eliminação completa da Lei de Alienação Parental é o mesmo que dizer:
“Como existem falsas denúncias, vamos fingir que nenhuma denúncia pode ser questionada.”
Isso não é justiça. É ideologia travestida de proteção.
A pergunta que ninguém responde
Quem defende a revogação costuma falar muito do risco de injustiça contra mulheres, mas quase nunca responde a pergunta central:
👉 qual instrumento jurídico sobra para DEFENDER A CRIANÇA de perder o convívio com o pai depois da revogação?
Silêncio.
Porque a resposta é incômoda:
- sobra o tempo passando;
- sobra a infância indo embora;
- sobra a narrativa única construída por quem detém a guarda.
Sem a lei, o pai vira espectador da própria paternidade.
Violência não tem gênero — mas a empatia parece ter
Existe um desconforto evidente em admitir que:
- mulheres também podem manipular;
- mulheres também podem agredir psicologicamente;
- mulheres também podem usar o sistema como arma.
Quando a violência vem do homem, a reação é imediata: “tolerância zero”.
Quando vem da mulher, surgem os “mas”:
- “mas ela sofreu”;
- “mas é contexto”;
- “mas é reação”.
Isso não é análise.
É relativização seletiva.
E relativizar violência psicológica contra crianças é violência institucional.
Proteger mulheres não exige sacrificar pais e filhos
Essa falsa dicotomia precisa acabar.
Não é verdade que:
- ou você protege mulheres
- ou você reconhece a alienação parental.
É possível — e necessário — fazer os dois.
Revogar a lei não torna o sistema mais humano.
Torna-o mais cego.
O que realmente incomoda
No fundo, o que incomoda nos debates sobre alienação parental não é a lei em si.
É a ideia de que a mulher também pode ser responsabilizada quando age mal.
E para alguns setores, isso é inaceitável.
Mas justiça não pode ser construída sobre intocáveis morais.
Justiça exige olhar caso a caso, sem rótulos automáticos.
Revogar é escolher um lado — mesmo fingindo neutralidade
Defender a revogação dizendo “não estou defendendo homens nem mulheres” é confortável.
Mas é falso.
Na prática, a revogação:
- fortalece quem já tem a guarda;
- silencia quem tenta manter vínculo;
- legitima a exclusão progressiva do outro genitor.
E, quase sempre, esse outro genitor é o pai.
A pergunta final
Se amanhã a Lei de Alienação Parental deixar de existir, e uma criança for lentamente afastada do pai por manipulação emocional, mentiras e obstrução de convivência…
👉 quem vai responder por isso?
Porque a criança vai crescer.
O pai vai envelhecer.
E o sistema, mais uma vez, vai dizer que “não havia instrumento legal”.
Talvez o problema nunca tenha sido a lei.
Talvez o problema seja quem prefere não enxergar certos abusos — desde que o agressor se encaixe na narrativa correta.






