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O “pobre de direita”: burrice, ignorância, ou apenas pensar por conta própria?

Tem gente que fala “pobre de direita” do mesmo jeito que fala uma piada pronta. Ri, ironiza, faz aquela cara de quem acabou de encontrar um defeito de fabricação no ser humano. Mas repare no detalhe: a risada vem antes do argumento. E isso entrega tudo.

Porque quem acha absurdo existir um pobre de direita, um gay de direita, um negro de direita ou uma mulher de direita, quase nunca está analisando a realidade. Está apenas repetindo uma doutrina que já foi instalada na cabeça dele: a de que a esquerda é quem defende essas pessoas, a ÚNICA que as defende, e que o outro lado as odeia. A partir daí, qualquer um que fuja do roteiro vira uma aberração moral. Não é mais alguém com convicções próprias. Vira um “traidor”, um “alienado”, um “cooptado”, um “sem consciência”. Não é raro ver, nas redes sociais, negros de direita serem chamados de “capitão do mato” — uma alusão cruel aos homens usados para perseguir e capturar escravizados fugitivos.

Imagine a cena. Um jovem, ou mesmo alguém que nunca parou para pensar muito sobre política, mundo, classes, poder, discurso. Essa pessoa se vê como pobre. E então começa a ser bombardeada por uma narrativa muito sedutora: ricos e classe média te desprezam; esse desprezo tem um lado político; esse lado é a direita; a direita existe para manter você onde está; a sua pobreza é, em essência, fruto do sistema que eles defendem. Mas calma: existe o suprassumo da bondade. Existe a esquerda. A esquerda te acolhe, te compreende, fala em seu nome, luta por você contra todo esse ódio. Pronto. Agora essa pessoa acredita que ganhou “consciência política”, “consciência de classe”, “consciência social”. E quando ela vê um pobre sendo de direita, o que ela pensa? Que aquele pobre enlouqueceu. Que está defendendo quem o odeia. Que está votando contra si mesmo.

Só que essa pessoa aprendeu muita coisa, menos a ter consciência do mundo real.

Aprendeu a repetir rótulos, não a enxergar gente. Aprendeu a enxergar classes e identidades como cercados ideológicos. Aprendeu a tratar ser humano como peça de tabuleiro. E aí mora o veneno principal dessa história: o discurso que se vende como libertação acaba tratando a pessoa como propriedade. “Eu te defendo” vira “eu te defino”. “Eu luto por você” vira “eu penso por você”. “Eu represento seu grupo” vira “você me deve obediência”. Isso não é respeito. Isso é colonização da identidade.

Esse é o ponto que muita gente finge não ver. O escândalo em torno do “pobre de direita” só existe porque muita gente já aceitou uma premissa anterior, falsa e desonesta: a de que defender pobre, negro, gay e mulher é monopólio da esquerda. E mais: que qualquer divergência de método é automaticamente prova de maldade. Se a direita não repete a cartilha do assistencialismo, então “odeia os pobres”. Se não fala o tempo todo em política identitária, então “odeia gays e negros”. Se não vive performando pureza moral vinte e quatro horas por dia, então “deve ser preconceituosa”.

Isso é um truque retórico infantil, mas muito eficiente. Ele confunde “não defender do mesmo jeito” com “odiar”. E isso é de uma desonestidade brutal.

A esquerda costuma vender a ideia de que protege o pobre principalmente por meio de transferência de dinheiro, benefício, subsídio, programa, tutela. A direita, em geral, argumenta que a forma mais duradoura de defender o pobre é acabar com a pobreza por meio de crescimento, emprego, formalização, previsibilidade econômica, segurança jurídica e um ambiente em que a pessoa precise menos do Estado para viver. Você pode até discordar desse método. O que você não pode, se estiver sendo intelectualmente honesto, é fingir que discordar do método equivale a odiar o destinatário. Ou seja, não é porque a direita acredita que propiciar emprego é a melhor solução a longo prazo, em vez de distribuir benefícios, que ela odeia os mais necessitados.

Não é porque alguém defende autonomia em vez de dependência que odeia o pobre. Às vezes, é justamente o contrário: tratar adulto como eternamente dependente é a forma mais refinada de desprezo.

É aqui que entra a pincelada necessária sobre assistencialismo. Sim, há casos reais em que a assistência estatal é não só legítima, mas indispensável. Emergência, incapacidade permanente, miséria extrema, situações em que a pessoa simplesmente não consegue se sustentar por meios próprios. Isso é civilização. O problema começa quando a ajuda deixa de ser ponte e vira moradia. Quando deixa de servir para reerguer e passa a servir para manter. Quando um sistema político se acostuma tanto a administrar carência que já nem parece interessado em resolvê-la.

A função nobre do auxílio é impedir a queda. A função corrupta do assistencialismo é gerar dependência.

E o mais curioso é que o terrorismo psicológico vendido em época eleitoral quase sempre segue o mesmo script: “se a direita vencer, vai tirar seus benefícios”; “se a direita vencer, gays ficarão desprotegidos”; “se a direita vencer, minorias serão esmagadas”. Só que a realidade insiste em atrapalhar o panfleto. Programas de transferência de renda continuaram existindo, foram reformulados e até ampliados em diferentes governos. Em agosto de 2022, o Auxílio Brasil pagava valor médio de R$ 607,88. Em 2023, o Bolsa Família fechou o ano com média de R$ 670,36. Em fevereiro de 2026, o benefício médio estava em R$ 690,01.

Ou seja: a propaganda diz “vão acabar com tudo”; a realidade mostra continuidade, reconfiguração e ampliação. O medo vendido pela esquerda foi útil para pedir voto, não para descrever os fatos.

Com a pauta LGBT, o mesmo mecanismo aparece. Pintam certos governos e certos campos políticos como se fossem, por definição, inimigos mortais dos gays. Mas a vida institucional também é mais complexa que a caricatura. Em 2019 a homofobia e transfobia receberam enquadramento também como injúria racial. Isso não significa que todo governante de direita virou herói dos gays. Significa algo mais simples e mais devastador para a narrativa do medo: mesmo em períodos demonizados como se fossem o apocalipse, o país continuou avançando em proteção jurídica.

Então a pergunta inevitável é: se os benefícios não desapareceram, se as proteções não sumiram, se as previsões histéricas não se cumprem, o que sobra? Sobra o uso político do pânico. Sobra a chantagem emocional. Sobra a necessidade de convencer o eleitor vulnerável de que ele morrerá sem o intermediário certo.

E é por isso que quem diz que pensa pelo pobre, pelo negro, pelo gay e pela mulher geralmente já parou de enxergar essas pessoas como indivíduos — e começou a enxergá-las como patrimônio eleitoral.

Essa lógica não fica só na política institucional. Ela invade até o futebol. No Rio Grande do Sul, estado onde vivo, o exemplo é didático demais para ignorar. Há quem ache inconcebível um negro ser gremista, porque o Grêmio teve episódios racistas no passado e também casos mais recentes envolvendo torcedores. Só que a mente cooptada pelo identitarismo não trabalha com realidade; trabalha com caricatura. Então ela pega um rótulo e transforma em essência eterna: “time racista”. E pronto. Como ousa um negro torcer para esse clube?

O problema é que a realidade, de novo, é mais incômoda para os simplistas. O Grêmio hoje mantém iniciativas públicas de combate à discriminação, com o projeto “Clube de Todos”, voltado ao enfrentamento do racismo, sexismo, homofobia e outras formas de preconceito. O próprio clube reafirmou recentemente que “o racismo não tem espaço”. O hino oficial é de Lupicínio Rodrigues. E a estrela dourada da bandeira homenageia Everaldo, jogador negro campeão do mundo em 1970.

É curioso ver gente abandonar o Grêmio por causa de práticas excludentes do século passado — comuns, aliás, a boa parte do futebol daquela época — e correr justamente para o rival. Porque, segundo o próprio Lupicínio Rodrigues, quando o Rio-Grandense, clube de negros e mulatos da Ilhota, tentou entrar na liga oficial de Porto Alegre, foi o Internacional, já embalado pelo discurso de “Clube do Povo”, quem votou contra. Foi o próprio Lupi, negro, popular e autor do hino gremista, quem usou esse episódio para explicar por que escolheu o Grêmio.

Agora veja a aberração mental criada pelo identitarismo: por causa de um rótulo herdado e de uma narrativa emocional, algumas pessoas chegam ao ponto de tratar como “contradição” um negro torcer para o clube que escolheu. Não porque analisaram o clube real de hoje, mas porque já aprenderam a obedecer ao script. É a mesma lógica do “pobre de direita”. A cor, a renda, o grupo, a identidade deixam de ser características da pessoa e passam a ser algemas ideológicas.

E isso tem cheiro de marxismo popularizado, mastigado, vulgarizado. Não daquele marxismo que o sujeito estuda. Estou falando daquele marxismo de internet, de diretório estudantil, de slogan de rede social, em que tudo vira opressor contra oprimido, rico contra pobre, maioria contra minoria, “povo” contra “elite”. Um pensamento que se vende como sofisticado, mas que no fundo infantiliza o mundo. Pega a realidade, que é complexa, e transforma num desenho de giz de duas cores. A partir daí, o pobre “deveria” estar de um lado, o rico “deveria” estar do outro, e qualquer um que escapa do papel recebe um carimbo de traidor.

O marxismo vulgarizado não ensinou muita gente a pensar. Ensinou muita gente a enquadrar.

E aqui entra outra cutucada que expõe a hipocrisia seletiva dessa turma. É curioso como acham um escândalo um gay ser de direita, mas não acham estranho ver ativistas LGBT repetindo slogans pró-Palestina sem encarar que a realidade para pessoas LGBT em Gaza está muito longe do progressismo que eles exigem de tudo e de todos no Ocidente. Na Faixa de Gaza, relações sexuais entre homens seguem criminalizadas, com pena que pode chegar a dez anos de prisão.

Isso significa que ninguém pode se solidarizar com civis palestinos? Claro que não. Pode e deve haver solidariedade humana diante de sofrimento e guerra. Mas a contradição continua gritando: em casa, exigem pureza ideológica absoluta de qualquer pobre, negro, gay ou mulher que ouse discordar; fora, fecham os olhos com uma facilidade espantosa para contextos que esmagariam justamente as minorias que dizem defender. Não é princípio. É tribalismo.

No fim das contas, por que existem pobres, gays, negros e mulheres de direita?

Porque essas pessoas são indivíduos. E indivíduos escolhem com base em prioridades reais, não em rótulos impostos.

Um pobre pode ser de direita porque acredita que a melhor política social é uma economia que gere emprego, renda e mobilidade, e não uma máquina que o mantenha eternamente dependente de repasse estatal. Um gay pode ser de direita porque prioriza liberdade individual, segurança, ordem, responsabilidade fiscal, ou simplesmente porque rejeita ser reduzido a um mascote do progressismo. Um negro pode ser de direita porque se recusa a terceirizar a própria consciência para um partido que acha que sua cor de pele já deveria vir com voto embutido. Uma mulher pode ser de direita porque não vê motivo algum para que sua condição de mulher a obrigue a aderir a uma cartilha política inteira como se fosse pacote fechado.

Eles existem porque nem todo mundo aceitou ser pastoreado pelo próprio rótulo.

E, sim, também existem porque as pautas que tradicionalmente pesam mais à direita falam com necessidades concretas: economia, emprego, crescimento, segurança pública, estabilidade, autonomia, previsibilidade, mérito, responsabilidade. São pautas que, gostem ou não, tocam a vida real. O pobre pode olhar para tudo isso e pensar: “eu não quero um governo que administre minha escassez; eu quero um governo que torne possível sair dela.” Isso não é burrice. Isso é um projeto diferente de liberdade.

Por isso aquela pergunta continua sendo tão incômoda e tão útil: você prefere viver num governo em que o único jeito de você ter casa, faculdade ou acesso a uma vida melhor é se o Estado te der? Ou prefere viver num governo que organize a economia de tal forma que você mesmo possa conquistar essas coisas, sem precisar pedir licença, favor ou repasse?

Essa pergunta não despreza quem precisa de ajuda. Ela apenas separa duas visões de sociedade. Uma em que o cidadão é permanentemente dependente da caneta de alguém. Outra em que o objetivo é que ele precise cada vez menos dessa caneta.

No fundo, é isso que deixa tanta gente nervosa quando encontra um “pobre de direita”. Porque, se esse pobre pode pensar por conta própria, então a narrativa do monopólio moral desmorona. Se um gay pode não seguir a cartilha, então o movimento não é dono dele. Se um negro pode escolher diferente, então ninguém tem o direito de transformar sua história em patrimônio partidário. Se uma mulher pode discordar, então o discurso de tutela perdeu o encanto.

E aí a risadinha some. Porque o deboche só funciona enquanto o outro aceita o papel que escreveram para ele.

O “pobre de direita” existe porque existe gente que prefere um governo que abra caminho para sair da pobreza a um governo que administre sua permanência nela. O “gay de direita” existe porque orientação sexual não apaga autonomia intelectual. O “negro de direita” existe porque cor de pele não é coleira ideológica. A “mulher de direita” existe porque sexo não determina consciência.

Quem acha isso absurdo não está defendendo minorias. Está apenas confessando que, para ele, certas pessoas não nasceram para pensar — nasceram para obedecer.

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