Existe um tipo de pessoa que assusta mais do que o canalha assumido.
Não é o sujeito que já se mostra bruto, arrogante, egoísta, debochado. Esse, pelo menos, vem sem embalagem. Você bate o olho e já sabe com o que está lidando.
O realmente perigoso é outro.
É a pessoa “boazinha”.
Sempre sorrindo. Sempre falando em empatia. Sempre carregando uma causa debaixo do braço. Sempre pronta para dizer que ninguém pode ser deixado para trás, que ninguém pode ser discriminado, que precisamos amar mais, acolher mais, ouvir mais, incluir mais. Tudo muito bonito. Tudo muito puro. Tudo muito fotogênico.
E, no começo, pode até parecer virtude.
Mas nem sempre é.
Porque existe uma diferença enorme entre querer fazer o bem e precisar se sentir bom.
E é justamente aí que mora o veneno.
Tem muita gente que não abraça causas porque ama a verdade, a justiça ou as pessoas. Abraça porque aquilo lhe dá uma sensação deliciosa de superioridade moral. Ela olha para o mundo como quem enxerga um jogo infantil de mocinhos e vilões. Um lado defende pobres. O outro defende ricos e patrões. Logo, um lado é bom, o outro é mau. Um lado acolhe. O outro oprime. Um lado é humano. O outro é desumano.
Pronto. O tribunal foi aberto e o veredito já saiu.
Não houve investigação. Não houve escuta. Não houve dúvida. Não houve maturidade. Só houve uma simplificação grotesca da realidade, seguida de uma recompensa psicológica imediata: a sensação de estar do lado certo.
E isso vicia.
Porque, a partir do momento em que a pessoa acredita que já descobriu quem são os bons e quem são os maus, ela não precisa mais pensar. Só precisa repetir. Não precisa mais ouvir. Só precisa julgar. Não precisa mais argumentar. Só precisa sinalizar que pertence ao campo dos virtuosos.
É por isso que tanta gente, do alto dos seus dezessete anos de profundidade moral de rede social, começa a soltar certezas sobre tudo. Vira especialista instantâneo em justiça, opressão, violência, gênero, economia, sociedade, verdade e civilização. E lá vem os vereditos, cuspidos como se fossem mandamentos divinos: “é óbvio”. “não tem nem o que discutir”. “só burro não vê”. “basta acreditar na palavra dela”. “quem discorda está do lado errado da história”.
Repare nesse detalhe: quando a pessoa usa “é óbvio” demais, quase sempre é porque não quer pensar. Quer encerrar.
O “é óbvio” virou muleta de gente rasa com pose de iluminada.
E isso seria apenas irritante, se parasse aí.
Mas não para.
Porque essa bondade performática, quando não é temperada por humildade, quase sempre degenera em autoritarismo.
Funciona assim: a pessoa constrói a própria identidade em cima da ideia de que é boa, justa, consciente, sensível, evoluída. Ela não apenas defende certas causas. Ela se enxerga como alguém moralmente superior por defendê-las. Isso não é mais convicção. É ego fantasiado de virtude.
Então aparece alguém com fatos, nuances, experiência, contexto, realidade. Alguém que mostra que o mundo não é um desenho de giz com um lado todo branco e outro todo preto. Alguém que lembra que entre o bem e o mal, entre a vítima e o culpado, entre o justo e o injusto, existe uma vasta região de cinza onde a vida real acontece.
E o que acontece com o “ser de luz”?
Ele se irrita.
Não porque a verdade foi ferida. Mas porque sua autoimagem foi ameaçada.
Se o mundo for mais complexo do que ele pensava, então talvez ele não seja tão sábio assim. Talvez não seja tão puro. Talvez não seja tão superior. Talvez aquele sorriso cheio de empatia seja só vaidade moral com verniz de compaixão.
E isso dói.
É aí que a bondade começa a ficar assustadora.
Porque, em vez de revisar suas certezas, muita gente prefere atacar quem as abalou. O opositor deixa de ser alguém com quem se discorda e passa a ser um problema moral. Um obstáculo. Um perigo. Um impuro. Alguém que precisa ser calado, removido, punido, apagado.
E então começa a fase mais sombria do “bonzinho”.
Ele já não acha tão ruim que certas pessoas sejam censuradas.
Já não acha tão ruim que percam espaço.
Já não acha tão ruim que sejam humilhadas em público.
Já não acha tão ruim que tenham reputações destruídas.
Já não acha tão ruim que sejam silenciadas.
Tudo isso, claro, em nome do bem.
E quando a degradação moral avança mais um pouco, ele já não acha tão ruim nem mesmo que pessoas do “lado errado” sofram violência. Em casos extremos, passa a enxergar agressão, prisão arbitrária, perseguição e até morte como coisas lamentáveis, sim, mas compreensíveis — desde que atinjam as pessoas certas.
Esse é o estágio final da bondade doente: a autorização moral para praticar o mal sem sentir culpa.
Porque, quando alguém se convence de que encarna o bem, passa a acreditar que qualquer mal que pratique deixou de ser mal. Virou necessidade histórica. Virou justiça. Virou correção. Virou limpeza. Virou defesa da humanidade.
É por isso que os fanáticos mais perigosos nem sempre parecem monstros. Às vezes parecem delicados. Sensíveis. Meigos. Engajados. Cheios de boas intenções. O problema é que boas intenções, quando misturadas com ego, ignorância e certeza absoluta, produzem monstros muito mais refinados do que a brutalidade explícita.
O tirano que rosna é fácil de reconhecer.
O tirano que sorri, não.
E há um detalhe que pouca gente percebe: essa pose de pureza moral quase sempre nasce de pouca vivência e excesso de simplificação. A pessoa viu meia dúzia de slogans, decorou os rituais certos, aprendeu a linguagem da empatia performática, entrou em algumas passeatas de causa simpática, adotou algumas palavras-talismã e pronto — já se sente apta a distribuir selo de humanidade e atestado de maldade para o resto do mundo.
É uma espécie de adolescência moral permanente.
Um estado mental em que a pessoa acha que complexidade é desculpa, dúvida é fraqueza, nuance é covardia e prudência é cumplicidade. Ela precisa que tudo seja simples porque sua superioridade depende disso. Se a realidade ficar muito complicada, seu personagem desmorona.
E é justamente por isso que eu desconfio mais dos puros do que dos honestamente falhos.
Quem se acha bom demais tende a se tornar cego.
Quem se acha justo demais tende a se tornar cruel.
Quem se acha consciente demais tende a se tornar arrogante.
Quem se acha moralmente superior demais tende a se tornar perigoso.
Já quem conhece as próprias falhas costuma carregar um freio interno. Quem sabe que não é um santo pensa duas vezes antes de bancar Deus. Quem reconhece a própria miséria moral tende a ser menos histérico, menos vaidoso, menos inquisidor. Não porque virou santo por isso. Mas porque perdeu o gosto de brincar de divindade.
Eu, por exemplo, não sou “bonzinho”.
Tenho falhas morais. Tenho contradições. Tenho limitações. Não acordo todo dia envolto numa auréola de empatia progressista, pronto para decretar quem é puro e quem é impuro. E ainda bem.
Ainda bem que não me vejo como uma dessas criaturas iluminadas que arrotam superioridade moral e intelectual como se tivessem recebido licença divina para organizar a consciência alheia.
Porque reconhecer que você não é perfeito é uma proteção.
Proteção contra a vaidade.
Proteção contra o fanatismo.
Proteção contra a tentação de achar que o mundo pode ser salvo à força.
O problema nunca foi querer fazer o bem.
O problema é quando a pessoa transforma a própria sensação de bondade em prova de que não precisa mais se questionar.
A partir daí, ela não está mais buscando justiça. Está só defendendo a própria autoimagem.
E gente que precisa se enxergar como boa o tempo todo quase sempre acaba se autorizando a fazer barbaridades, desde que consiga chamá-las de virtude.
No fim, as pessoas “boazinhas” mais perigosas não são as que têm compaixão. São as que usam a compaixão como palco. Não são as que querem ajudar. São as que precisam parecer moralmente impecáveis enquanto pisam em quem ameaça essa fantasia.
O fanático que odeia abertamente é fácil de identificar.
O mais perigoso é o que persegue sorrindo.





