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Talvez aderir a um Socialismo 2.0 seja a solução para o mundo

Durante séculos, a economia girou sobre um princípio simples: gente trabalha, recebe, consome e mantém o sistema vivo. O problema é que esse ciclo pode não sobreviver à automação extrema. Se a inteligência artificial e a robótica chegarem ao ponto de substituir o ser humano em massa, não estaremos apenas diante de uma crise de emprego, mas de uma crise do próprio capitalismo tradicional. Afinal, de que adianta produzir mais barato, mais rápido e em maior escala, se a maioria das pessoas já não tiver renda para comprar? Nesse cenário, talvez o futuro não seja nem socialista no sentido clássico, nem capitalista como conhecemos, mas uma mistura incômoda dos dois.

E antes que alguém trate isso como papo bobo, exagero ou ficção científica barata, vale olhar para o que já está acontecendo agora. A China transformou seus humanoides em vitrine nacional. Em fevereiro de 2026, a Reuters mostrou que empresas como Unitree, Galbot, Noetix e MagicLab colocaram robôs no centro do Gala do Festival da Primavera, o programa mais assistido do país. Não foi só dancinha programada. Houve demonstrações de movimentos complexos, artes marciais e ajustes em tempo real diante de pequenas variações do ambiente, algo que poucos anos atrás ainda parecia distante demais até para os mais otimistas.

A própria Unitree já vinha chamando atenção desde 2025, quando um esquadrão de 16 humanoides H1 apareceu no gala chinês. Em julho do mesmo ano, a Reuters também noticiou que a empresa lançou um novo humanoide, o R1, por 39.900 yuans, bem abaixo do preço do modelo anterior. Em outras palavras: além de mais capazes, esses robôs estão entrando numa trajetória de barateamento, exatamente o tipo de processo que historicamente acelera adoção em massa.

E não para no espetáculo. A 1X, empresa norueguesa de robótica, já abriu pedidos para o NEO, um robô doméstico apresentado como assistente para tarefas da casa. No material oficial da empresa, o NEO aparece com interface por voz, aplicativo para gerenciamento remoto, agendamento de tarefas e capacidade de cuidar de afazeres domésticos. A promessa já não é “um dia, talvez”; a promessa é: “transforme sua casa agora”.

Nos Estados Unidos, a Figure segue a mesma direção. A empresa apresenta o Figure 03 como um humanoide para o ambiente doméstico, dizendo abertamente que ele foi pensado para lidar com lavanderia, limpeza e louça, apoiado pelo sistema Helix para operar em ambientes imprevisíveis do dia a dia. Em 2025, a Reuters também informou que a empresa captou mais de US$ 1 bilhão numa rodada que a avaliou em US$ 39 bilhões, sinal de que o mercado não trata mais esse setor como curiosidade de laboratório.

Enquanto isso, o uso industrial vai deixando de ser hipótese. Em maio de 2025, a Reuters mostrou a ambição chinesa de empurrar humanoides para tarefas de fábrica e de rotina, com robôs sendo treinados para atividades como dobrar roupas, preparar alimentos e atuar em montagem industrial. Em janeiro de 2026, a mesma agência noticiou que a Hyundai pretende levar o Atlas, da Boston Dynamics, para uma fábrica nos Estados Unidos a partir de 2028. E, em junho de 2025, Reuters revelou que Nvidia e Foxconn discutiam o uso de humanoides numa planta de servidores de IA em Houston.

Talvez ninguém saiba o prazo exato em que tudo isso vai amadurecer. Talvez muitos desses projetos atrasem, tropecem ou demorem mais do que seus vendedores prometem. Mas já ficou difícil sustentar que isso seja exagero. A automação humanoide deixou de ser uma fantasia convincente e começou a virar uma tendência concreta demais para ser ignorada. O debate sério, agora, não é se máquinas com corpo, visão, coordenação e tomada de decisão vão entrar no mundo real. Elas já entraram. A pergunta virou outra: o que acontece com uma sociedade inteira quando produzir deixa de depender de gente, mas consumir continua dependendo de renda?

Aí é que mora o problema. O capitalismo moderno foi montado sobre um ciclo relativamente simples: pessoas vendem sua força de trabalho, recebem dinheiro e usam esse dinheiro para comprar os bens e serviços produzidos pelas empresas. Essas empresas, por sua vez, lucram, reinvestem, contratam mais gente e mantêm o ciclo girando. Só que esse mecanismo tem um elo frágil: ele depende de que a maior parte da população continue economicamente útil como trabalhadora. Se a utilidade econômica do ser humano despenca, o resto do arranjo começa a balançar junto.

Muita gente responde a isso com um argumento automático: “toda revolução tecnológica criou novos empregos”. É verdade que isso aconteceu antes. Máquinas substituíram músculos, mas abriram espaço para operadores, técnicos, mecânicos, engenheiros, programadores, designers, gestores e toda uma cadeia nova de funções. O problema é que a revolução da IA e da robótica avançada pode ser diferente justamente porque ameaça não apenas uma tarefa, mas o pacote inteiro ao redor dela. Um sistema futuro pode executar a função principal, diagnosticar falhas, corrigir software, otimizar rotinas, pedir peças, fazer manutenção e ainda interagir com humanos com mais consistência do que muitos trabalhadores reais. Se isso avançar como parece estar avançando, não estaremos diante de mais uma troca de ferramentas, mas da primeira grande revolução em que o próprio ser humano corre o risco de deixar de ser a peça central da produção.

É nesse ponto que a conversa deixa de ser tecnológica e vira econômica. Porque não basta produzir. É preciso vender. E para vender em escala, é preciso que exista gente com poder de compra. Uma sociedade composta por meia dúzia de donos de plataformas e uma multidão economicamente descartável não sustenta mercado por muito tempo. O empresário mais ambicioso do planeta pode ter a fábrica mais eficiente, o robô mais barato e a margem de lucro mais alta. Se não houver consumidor com dinheiro no bolso, o estoque para, a receita seca e o império começa a apodrecer.

Por isso a velha oposição simplista entre capitalismo e socialismo talvez não dê conta do que vem aí. O que pode surgir não é o socialismo clássico, com estatização ampla, fim do lucro e planejamento central rígido. Também não parece plausível imaginar que o livre mercado, sozinho, dará conta de distribuir renda numa sociedade em que o trabalho humano perdeu valor em massa. O arranjo mais provável pode ser outro: produção privada altamente automatizada, lucros concentrados e, ao mesmo tempo, redistribuição forte de renda para impedir que o sistema morra por falta de base consumidora.

É aí que entra a provocação do “Socialismo 2.0”. O nome é imperfeito, mas útil. Não se trata de defender a velha fórmula soviética, nem de sonhar com um Estado dono de tudo. O ponto é outro: se a riqueza continuar sendo gerada, só que agora principalmente por máquinas, essa riqueza precisará voltar para a sociedade por algum canal que já não será o emprego tradicional. E, olhando para o mundo como ele é hoje, o canal mais plausível continua sendo o Estado, por meio de tributação, transferência de renda, serviços universais ou uma combinação disso tudo.

Alguém vai dizer que existem outras possibilidades: dividendos, participação acionária, royalties, fundos, ativos digitais, micropropriedade. Mas quase todas essas saídas têm um defeito evidente: elas favorecem, sobretudo, quem já tem patrimônio, acesso, capital ou posição privilegiada. Não resolvem o problema de massa. Não adianta dizer a uma população economicamente substituída que ela pode viver de ativos se justamente o problema é que ela nunca teve ativos. Quando a renda do trabalho some, a conversa sobre renda alternativa não pode depender apenas de propriedade prévia, porque isso é apenas outra forma de dizer que os incluídos continuarão incluídos e os excluídos continuarão excluídos.

Também há quem reaja com medo de que redistribuição gere acomodação. Esse medo não é absurdo, mas costuma errar o alvo. O problema dos modelos coletivistas rígidos do século XX não foi só distribuir demais. Foi centralizar demais, matar a concorrência, sufocar a experimentação e enfraquecer o vínculo entre esforço, risco e recompensa. Em termos simples: quando quase tudo depende do Estado e quase nada premia quem melhora, arrisca ou cria algo novo, a economia vai ficando pesada, lenta e sem fôlego. A União Soviética é um dos exemplos mais citados disso. Tinha poder em áreas estratégicas, mas dificuldade enorme para transformar isso em variedade, qualidade e inovação no cotidiano das pessoas.

Só que o cenário aqui é outro. A hipótese não é a de uma sociedade em que todo mundo recebe a mesma coisa, viva do mesmo jeito e não tenha como crescer. Pelo contrário. O modelo híbrido que se desenha manteria o incentivo privado, a busca por lucro, a competição e a possibilidade de ascensão. A diferença é que ninguém seria empurrado para a miséria absoluta só porque deixou de ser economicamente necessário numa era em que a máquina trabalha melhor do que ele. A renda distribuída, nesse caso, não mataria a ambição; ela funcionaria como piso civilizatório.

E há outro detalhe que muita gente subestima: uma sociedade com menos trabalho obrigatório não seria uma sociedade sem consumo. Provavelmente seria o oposto. Hoje, muita gente não consome mais experiências não apenas por falta de dinheiro, mas por falta de tempo, energia e liberdade. Se o tempo volta para as pessoas, a demanda por lazer, cultura, turismo, jogos, esportes, exploração, educação, conforto e entretenimento tende a crescer. Ou seja: sem trabalho compulsório, o consumo pode mudar de forma, mas dificilmente desaparece.

Nesse sentido, talvez a elite econômica do futuro aceite redistribuir não por altruísmo, mas por puro instinto de sobrevivência. Um mundo em que poucos controlam a produção e muitos não conseguem consumir é um mundo economicamente instável até para os vencedores. O dono do robô, da plataforma, da fábrica e do modelo de IA talvez continue rico por algum tempo. Mas, sem uma base consumidora minimamente funcional, até o seu reinado passa a ter prazo de validade. O que sustenta a elite não é apenas a posse de ativos; é a existência de um sistema social que ainda converte produção em receita.

No fundo, talvez o grande paradoxo do futuro seja este: o capitalismo pode só sobreviver se aceitar se tornar um pouco mais socialista. Não no sentido de abolir a propriedade privada, mas no de admitir que a sobrevivência material da população não poderá continuar dependendo exclusivamente da venda de trabalho humano. Se a automação extrema romper esse elo, a renda terá de ser religada por outro. E esse “outro” terá cara de redistribuição, gostemos ou não.

É claro que nada disso virá de forma limpa. Se esse caminho realmente se confirmar, a transição deve ser conflituosa, desigual e cheia de resistência. Grandes grupos econômicos não entregarão fatias de riqueza sorrindo. Governos podem agir tarde, mal ou de forma insuficiente. Países ricos podem encontrar saídas antes; países pobres podem sofrer mais. Mas a pressão estrutural continuará ali, martelando o mesmo problema: como manter uma sociedade funcionando quando a maioria já não é necessária para gerar valor econômico, mas continua precisando viver, consumir e existir com dignidade?

Talvez o “Socialismo 2.0” não seja o nome técnico mais correto para isso. Talvez o termo mais preciso fosse algo como capitalismo automatizado com redistribuição estrutural. Mas a provocação continua válida. Se robôs trabalharem, empresas lucrarem e o Estado tiver de devolver parte dessa riqueza à população para que a própria economia continue respirando, o mundo estará entrando, sim, em algo novo. Algo que não é a repetição do socialismo do século XX, mas também já não será o capitalismo puro que muitos ainda fingem defender.

A pergunta do futuro, portanto, talvez não seja se a IA vai tirar empregos. A pergunta é mais funda e mais incômoda: quando o trabalho humano deixar de ser a principal porta de entrada para renda, qual sistema virá preencher esse vazio? Talvez a resposta não seja bonita, nem ideologicamente pura. Mas pode ser a única capaz de impedir que a abundância tecnológica conviva com miséria em massa.

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