Um conto chamado “Eleições na família – papai dos pobres”
Certo dia, resolveram aplicar a “democracia” à gestão do orçamento familiar. Era uma família grande: mamãe, papai e cinco filhos. Nos últimos oito meses, a administração vinha sendo conduzida pela mamãe, que havia conseguido colocar as finanças em dia. Entretanto, aparentemente, o pessoal da casa estava querendo mudanças. Foi então que decidiram realizar as “Eleições na Família”.
O processo funcionaria da seguinte maneira: papai e mamãe apresentariam suas propostas de gestão, e os filhos votariam. Sem distinção de experiência de vida, grau de inteligência ou idade, cada voto teria o mesmo peso: um. O vencedor ficaria responsável pela administração do orçamento durante os quatro meses seguintes.
Mamãe apresentou sua proposta. Basicamente, cada um deveria cumprir sua parte nos afazeres domésticos, cuidando da limpeza e da organização da casa. O dinheiro proveniente do trabalho de papai e mamãe seria destinado ao pagamento das contas e à alimentação. O que sobrasse, graças à economia proporcionada pelo trabalho de todos, seria dividido entre investimentos para o futuro e o lazer do mês, como uma noite de pizza a cada duas semanas e a assinatura da Netflix, que todos adoravam.
Mamãe também fez questão de destacar que, com os investimentos crescendo, a família poderia desfrutar de benefícios ainda maiores no futuro, como viagens e até mesmo a possibilidade de escolher em qual faculdade cada filho gostaria de estudar.
Então, papai apresentou sua proposta.
Noite da pizza? Sempre que quisessem! Serviços de streaming? Assinariam todos aqueles que os filhos desejassem. Além disso, cada um já poderia estudar na escola que quisesse ou até escolher uma faculdade naquele mesmo momento. A família pagaria tudo. E, se algum deles não quisesse estudar, também não haveria problema. Chocolates, salgadinhos e guloseimas em geral? Totalmente liberados, sempre!
Essas foram as propostas. Os cinco filhos votaram. Adivinhem quem ganhou?
Papai, é claro!
Começou então a gestão do papai. Ele cumpriu tudo o que havia prometido e até algumas coisas que não prometera, como organizar festinhas particulares com os amigos, sem que o restante da família soubesse. Mas, dentro de casa, a felicidade estava em alta. Até os dois filhos mais velhos, que inicialmente estavam céticos e não haviam votado em papai, por considerarem suas propostas irresponsáveis, acabaram se rendendo à onda de fartura que invadiu o lar.
Passaram-se quatro meses. Nova eleição, e papai foi eleito novamente. Dessa vez, até os filhos mais velhos votaram nele.
Nos quatro meses seguintes, as coisas já não foram tão fartas, mas continuavam boas. Papai, por sua vez, seguia promovendo suas festinhas clandestinas com os amigos. Muitos membros da família já sabiam delas, mas ninguém parecia se importar muito. Afinal, ainda havia pizza, chocolates e uma infinidade de séries para assistir.
Chegou o último mês daquele mandato, e alguns dos filhos começaram a perceber uma leve tensão entre os adultos da casa. Nada muito grave, aparentemente. A vida seguia normalmente.
Uma semana antes das novas eleições, papai ficou doente e não teria condições de continuar à frente da administração da casa pelos quatro meses seguintes. Mas, por sorte, naquele mesmo período, chegou para passar uma temporada com a família a irmã de papai, a titia Dilmara.
Para não perder o controle sobre o orçamento e, principalmente, para impedir que mamãe voltasse a governar, papai decidiu indicar titia para concorrer em seu lugar. Ela deveria dar continuidade ao seu legado e manter tudo aquilo que ele vinha fazendo.
Titia não era muito boa com discursos. Gostava de dizer que seria a “presidAnta” da casa, mas frequentemente se enrolava ao tentar explicar suas propostas. Ainda assim, havia uma mensagem que os filhos compreendiam perfeitamente: ela seria a continuação do governo de papai.
Titia foi eleita, apesar da desconfiança de um dos filhos, que preferiu não votar nela. E, de certa forma, cumpriu o prometido. Com alguns cortes, é verdade. A pizza, por exemplo, já não era servida sempre que quisessem, mas apenas em dias específicos. De modo geral, porém, tudo continuava como antes.
Passaram-se mais quatro meses. Papai ainda não tinha condições de concorrer, e titia disputaria a reeleição. Seu argumento era o mesmo: dar continuidade ao que papai havia começado.
Dessa vez, até o filho desconfiado acabou dando o braço a torcer.
“De fato, esse governo do papai e da titia foi bom para nós. Afinal, quando é que a gente comia pizza tantas vezes seguidas? E quando é que poderíamos estudar em uma escola particular? Isso era coisa de rico! Agora, nós, pobres, até frequentamos aeroportos para viajar de avião!”, pensou ele.
Nova eleição. Resultado: titia reeleita.
Começou o novo mandato, mas aquela tensão entre os adultos, que antes poucos filhos haviam percebido, começou a aumentar e se tornou cada vez mais evidente.
O dinheiro passou a faltar até para as coisas mais básicas.
— Vai ao banheiro? Acabou o papel!
— Quer cozinhar um risoto? Não tem arroz!
Assim eram os dias naquela casa. É claro que as crises sempre acabavam sendo contornadas. A falta de algum produto durava apenas um ou dois dias, pois titia sempre dava um jeito de conseguir dinheiro e comprar o que estivesse faltando.
Mas lembram daquela promessa de que cada filho poderia estudar onde quisesse ou, se preferisse, nem sequer estudar?
Pois bem, foi justamente aí que a situação começou a apertar de verdade. Aqueles que queriam estudar já não conseguiam encontrar escolas disponíveis. E os que antes não tinham interesse em estudar agora começavam a sentir necessidade de procurar uma instituição de ensino, mas também não encontravam vagas.
Era uma crise!
Em meio àquela escassez, um belo dia, titia teve a brilhante ideia de levar toda a família para assistir a um jogo da Copa. O pessoal da casa ficou indignado e começou a protestar. E assim se sucederam os protestos, durante vários dias.
A gota d’água veio quando descobriram algumas das irresponsabilidades que titia vinha cometendo. Entre elas, manter as noites de pizza, mesmo que fosse necessário comprar fiado, enquanto as contas de energia elétrica, ainda atrasadas desde a gestão de papai, eram pagas com dinheiro emprestado de agiotas.
A situação ficou insustentável. Tiraram titia da administração da casa.
Mamãe, entretanto, estava ocupada cuidando de papai e não poderia assumir o comando. Então, quem apareceu para ocupar o lugar foi o namorado de titia, o tio Temerio.
Tio Temerio até tentou colocar ordem na casa. Mas, como era de se esperar, o remédio agora era amargo. Seria necessário reformular completamente a maneira como a família administrava seus recursos. E, para piorar, ainda precisaria aguentar toda a reclamação dos filhos mais novos, aqueles mais ingênuos, que não aceitavam a saída de titia. Afinal, ainda sentiam muita saudade dos tempos de papai e enxergavam nela uma continuação daquele governo.
Foi nesse período que os filhos começaram a descobrir o que realmente havia acontecido.
Bem, nem todos. Os mais infantis continuavam chorando pela saída de titia, inconformados com a perda do governo que tanto admiravam.
A verdade é que, graças à venda de uma herança que mamãe havia recebido de um tio do agro, a família dispunha de uma boa quantia guardada na poupança. Ela havia vendido soja, milho, trigo e carne bovina, ou seja, commodities, para um pessoal chinês.
Foi justamente nesse momento que papai assumiu a administração da casa e começou a gastar aquele dinheiro.
Em vez de pensar no futuro dos filhos, investir na educação, ensinar-lhes sobre economia e melhorar a infraestrutura da casa, papai simplesmente começou a despejar dinheiro naquilo que eles desejavam naquele momento, sem qualquer preocupação com o amanhã.
Não que fosse errado presentear os filhos quando se tem uma boa quantia disponível. O problema é fazer isso sem qualquer preocupação com o futuro deles, vivendo no bem-bom às custas dos recursos que deveriam garantir justamente esse futuro.
Isso, no mínimo, é irresponsabilidade. Para não dizer crueldade e outras coisas.
Com esse estilo de gestão irresponsável, mas repleto de benefícios imediatos para os filhos, papai foi se reelegendo. Quando já não pôde mais concorrer, tratou de eleger titia em seu lugar.
O problema é que dinheiro, quando é gasto e não reposto, um dia acaba.
E, pouco antes mesmo da primeira eleição de titia, papai já dava sinais de que os recursos estavam chegando ao fim. Durante seu primeiro mandato, titia passou a administrar apenas o que restava daquela grande venda para os chineses, além de ter que lidar com as dívidas que papai havia deixado.
Mesmo diante desse cenário, ela não mudou a maneira de administrar a casa. Afinal, era justamente aquele modelo que vinha garantindo as vitórias eleitorais de papai e dela até então.
No segundo mandato de titia, o dinheiro acabou de vez. O salário que os adultos recebiam já não era suficiente nem para pagar as dívidas acumuladas na pizzaria, quanto mais as contas de luz, água, internet e todas as outras despesas da casa.
A família entrou em colapso.
Ficou a lição para os filhos mais atentos: oferecer benefícios sem construir uma economia sólida, sem garantir segurança, previsibilidade e investimentos para o futuro, acaba destruindo a própria casa e prejudicando justamente aqueles que mais precisam de proteção.
Encher os filhos de benefícios sem lhes proporcionar condições para que, no futuro, não precisem mais deles é condená-los a depender eternamente da generosidade de papai.
Já os filhos mais ingênuos… Ah, esses, coitados! Continuavam convencidos de que papai estava certo.
“E daí que os donos das pizzaria Itaó, Bradisco e outras ficaram ainda mais ricas nesse período? E daí que os titios da JBSS e de outras empresas davam presentes para papai, que, em troca, comprava seus produtos com o dinheiro da família?”
Eles não queriam saber dessas coisas. Eram todos apaixonados por papai.
As pessoas próximas, ao observá-los, costumavam dizer:
— Pobrezinhos!
E eles, orgulhosos, abraçaram o termo, eram os pobrezinhos do papai, então passaram a repetir com satisfação:
— Pai dos pobres!
Enfim, muita coisa ainda aconteceu naquela família.
Papai acabou sendo preso, mas muitos amigos e parentes continuavam gostando muito dele. Afinal, haviam ganhado bastante dinheiro com os recursos da família que papai gastara com eles.
Depois, um tio que havia sido militar assumiu a administração da casa por um tempo, daí teve uma doeça que deixou quase todo mundo doente. Mas aqueles mesmos amigos e parentes de papai fizeram tanta pressão que praticamente impediram o tio de governar como pretendia.
Papai, por sua vez, conseguiu fugir da cadeia com a ajuda de alguns amigos e voltou a disputar o comando da família. E um desses amigos, que detestava o tio ex-militar, deu um jeito de colocá-lo na cadeia.
Papai ficou muito feliz com isso. Afinal, o tio poderia ser seu adversário nas próximas eleições familiares.
E essas eleições já vinham despertando a desconfiança de muitos filhos. Na eleição anterior, o tio ex-militar tinha um bom relacionamento com a maioria deles, enquanto papai mal conseguia colocar a cara na sala sem ser vaiado.
Ainda assim, quando saiu o resultado, papai havia vencido.
Essa é a história dessa família, que nos deixa uma reflexão:
Dar tudo o que o povo da sua casa quer, sem se preocupar com o amanhã, pode até fazer você ser visto como o melhor pai ou mãe do mundo por algum tempo. Mas um bom pai ou mãe de verdade talvez não seja aquele que passa a vida dando benefícios aos filhos e fazendo com que dependam dele para comer, estudar, viajar ou pagar suas contas.
O verdadeiro pai é aquele que trabalha para que seus filhos tenham condições de, um dia, não precisar mais dele.
Porque dar ao filho aquilo de que ele precisa hoje pode fazê-lo grato.
Mas dar a ele as condições para não precisar daquilo amanhã é o que realmente o torna livre.
A não ser, é claro, que não se queira um povo realmente livre. Porque existe uma diferença enorme entre tirar alguém da pobreza e administrar a pobreza para que ela nunca acabe.
Afinal, que espécie de pai quer ser o “pai dos pobres”, mantendo seus “filhos” pobres para sempre?
Esse pai não é o “pai dos pobres”. É o pai da pobreza.





